Vita Endocrinologia & Metabologia
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Junho/2010 - Entenda a polêmica da Sibutramina
(Dra Adriana Angelucci)

  Nos últimos meses temos nos deparado com muitas notícias na mídia leiga a respeito do medicamento "Sibutramina" que acabam gerando dúvidas e insegurança para muitos pacientes que utilizam esta medicação. Se você tem dúvidas ou quer entender melhor o que está acontecendo, este artigo pode ser útil. Mas lembre-se: nada melhor do que conversar pessoalmente com seu médico ok?

    A Sibutramina é uma medicação indicada para tratamento da obesidade, já no mercado há muitos anos, e seu uso é respaldado por inúmeros estudos sérios que comprovam sua eficácia e segurança em pacientes selecionados. Devido ao mecanismo de ação da Sibutramina, um de seus efeitos colaterais é o aumento (discreto, na maioria dos casos) da frequencia cardíaca e da pressão arterial, o que pode ser perigoso para alguns indivíduos.

    A polêmica atual é devida aos resultados de um destes grandes estudos, o SCOUT (sigla para "Sibutramine Cardiovascular Outcome Trial"). Basicamente, o SCOUT foi um estudo realizado simultaneamente em diversos países (inclusive o Brasil), que buscou avaliar a segurança do uso do medicamento em pacientes obesos com alto risco para doenças cardíacas: a maioria dos participantes já tinha história de infarto ou AVC ("derrame"), cirurgias cardíacas, ou eram diabéticos graves com outros fatores de risco. A idéia era oferecer aos médicos uma alternativa segura para o tratamento da Obesidade nestes pacientes, pois é sabido que a perda de peso, mesmo discreta, melhora a evolução clínica neste perfil de pacientes. Entretanto, após mais de 5 anos de estudo, os resultados mostraram um AUMENTO (pequeno, mas significativo) na porcentagem de novos eventos cardiovasculares nos pacientes que utilizaram Sibutramina. Portanto, a conclusão do estudo é que a Sibutramina NÃO É SEGURA PARA ESTE GRUPO DE PACIENTES. Os resultados não podem ser extrapolados, entretanto, para pacientes que não se encaixem no perfil estudado, pois em pacientes chamados de "baixo risco", sem antecedentes cardiovasculares, já existem outros estudos mostrando segurança.

    Estes resultados acabaram gerando conseqüências no mundo todo: na Europa a medicação foi suspensa, no Brasil a ANVISA acabou restringindo um pouco mais a venda, enfim, foram tomadas medidas que geraram muita polêmica, o que ainda está longe de acabar.

    Na minha opinião, muito desta polêmica é devido a um certo "preconceito" da população leiga e mesmo de parte da classe médica em relação ao tratamento da Obesidade, que muitas vezes é encarada apenas como uma questão estética, ou problema de "falta de força de vontade". Com esta visão, não se aceita qualquer risco associado ao tratamento. A Obesidade, entretanto, deve ser encarada como uma DOENÇA CRÔNICA associada a diversas complicações, responsável direta ou indiretamente por muitas doenças e de causa multifatorial, onde fatores genéticos, psicológicos e ambientais se somam. Neste contexto, o uso de medicações (e às vezes cirurgias) faz parte do arsenal terapêutico e cabe ao profissional especializado avaliar a necessidade de cada paciente, bem como os riscos envolvidos em cada escolha.